Fogueira das vaidades ou o devaneio sobre redes sociais

Proíbo todos os leitores de encontrar uma moral no que escrevo. Não sou pregadora nem profeta, esses extinguiram-se. 

E assim, eliminei pela milésima vez as redes sociais a que me subjuguei.

Manifesto de desabafo

1.
Sou uma alma velha, mas debato-me com os problemas de qualquer jovem. A ansiedade de viver e ser é um deles, serei toda eu inteira que  chegue para o arquétipo que as redes sociais criaram? Pois ser infeliz, esse direito da vida não é manifestado nessas redes. Apenas se vê imagens editadas de cidades mortas e cuja  beleza se esconde atrás de um filtro, de jovens que sorriem de uma festa qualquer directamente para o meu telemóvel. E finalmente, a minha imagem editada e que pela milésima vez aparece para alguém gostar numa prece de aprovação. Ninguém é real, muito menos eu nesse sitio.

2.
Para alguém que de facto já se debateu  com isso, a romatização da doença mental que se encontra em inocentes posts é mais que tudo o reflexo artificial que criamos da vida na internet.

3.
Encontrei sobre este estúpido mundo, um pensamento daqueles ridiculos que se imiscuem na nossa mente, e nesse pensamento sobre o mundo estava a minha geração. Uma geração liberal mas correcta ao  ponto de queimar bruxas. Onde se queima uma bruxa neste milénio? Qual opinião publica que lê jornais, o  Instagram é tudo o que  se precisa para ter uma opinião. Cria-se assim uma avalanche de opiniões que mais ou menos corretas se vergam a uma que a começou. Tolerem que no pensamento não caiba mais que a individualidade de ser quem sou, e com isso quero dizer: Não condeno opiniões, apenas condeno a tendência humana a  linchamentos.

4.
Finalmente,  considero algo que me distrai de escrever e viver como deve ser um malefício para a minha vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Juventude ou escolha

Facilmente se chega à conclusão que a juventude é sinonimo de sonhos porque ainda não tivemos tempo de os deixar cair. Onde os deixamos cair? No encargo que a sociedade nos dá de viver uma vida. A reprodução é aquilo que a espécie pede, o estado que tenhas um emprego, os teus pais que não te metas nas drogas e que lhes dês, como à espécie, muitos netinhos. E claro que o estado também precisas de putos (futuros contribuintes), os teus pais também querem que não morras à fome e tenhas um bom emprego. Decerto parece que estou a defender os  jovens que não trabalham nem estudam (a propósito, devíamos ouvir o que eles dizem) no entanto o meu ponto de partida foram os sonhos. Ao longo da nossa vida passamos por varias fases de sonhos: na infância queria ser locutora de documentários depois feiticeira em Hogwarts (está certo que a evolução não demonstrou o crescimento), finalmente médica. Como nunca teria notas para medicina fui para enfermagem. Só caí em mim, e olhei para quem era, no meio de um hospital. Mais interessada em ouvir as historias dos doentes que em curá-los e quase a chorar (por dentro, por fora nem estremeci) ao colocar uma sonda pelas narinas abaixo, decidi optar por um curso de Letras. Mas por esta evolução entendemos como o mecanismo funciona. Ter emprego é mais importante que fazer algo que importa e que nos ajuda a viver. Não é o dinheiro que nos ajuda a viver, mas sim o trabalho que escolhemos fazer.

O encargo e os ultimatos que a sociedade nos dá levam-nos a escolhas cegas, pelo menos considero as minhas escolhas cegas. Mudar de curso, perder um ano, coisas que a sociedade não pede, aconteceram. Os sonhos, neste post referem-se ao que queremos que a nossa vida seja. Ter uma família é um sonho meu (não duvidem). Considerando que ver uma criança crescer deve ser maravilhoso, amando-a queremos que sobreviva na selva urbana por isso é fácil querer fazê-la escolher o caminho fácil de um curso com emprego. Em ultima instância a decisão de ir para enfermagem foi minha.

Os sonhos vão caindo por terra com o mecanismo e as escolhas. Mais velhos, talvez nos restem poucos no entanto nunca é tarde. E se há vontade que quero fazer à sociedade é ter uma família um dia e dar tudo o que puder aos meus filhos. No entanto sonhar é enquanto sou jovem, e é enquanto jovem também que tenho tempo para perseguir sonhos. Dizem que primeiro precisamos de comer e só depois de sonhar, concordo apenas parcialmente.

Parágrafo à depressão

Nenhum lugar era o meu lugar. Desde que nasci que havia um tipo desconhecido de sabedoria, que em tom de acompanhamento, dizia que eu não era parte integrante do que me rodeava. A auto-marginalização a que eu sucumbi encontrou em parte nesta razão força para continuar. Continuar, o verbo cuja acção se apoiava na inércia de existir só por existir, muitas vezes este verbo está associado ao agir, contudo a minha existência era um continuar sem fazer nada. Abrir os olhos e ver o meu corpo a executar todas as suas funções sem que eu lhe pedisse, porque se eu tivesse algum papel em todo o mecanismo que me fazia viver à parte de existir, certamente que cessaria essa vida. Na verdade, isto que digo não corresponde à verdade, pois o ato de comer representa uma acção pela minha parte em prol da execução da minha vida, mas mesmo comer era para mim tal sacrifício que estava este ato reduzido ao mínimo. O que me permitia ignorar esse corpo que eu arrastava. Posso até inferir que a falta de apetite era uma manifestação da grande ausência que eu era.

A voz da mãe ou um lugar entre infâncias

A mãe vestiu-nos de preto. A mãe queria voltar, no entanto estava estranha. Não era, como agora sei, o regresso que ela desejava. Ou era o desconhecido desbravado por nós da forma que ela queria. Porque, para ela, a infância fora a mais bela do mundo. E hoje, para ela era o regressar a esse lugar para dar a concordância da alma com a morte de Pedro. Fazer-lhe uma oração e deixá-lo ir. Um funeral pode ser triste, mas nada foi mais triste que testemunhar a morte de uma infância. Embora já a tivesse deixado, esta era profundo traço de si.

Descemos no elevador com ela e nosso pai. Ela levava o cabelo solto e um sorriso nos lábios. Destoava a escura silhueta que se afundava connosco naquele elevador. O sorriso era de adulta. A mãe tinha contado a história do Peter Pan. Sei hoje que dentro dela havia uma eterna infância a qual podia regressar numa qualquer limpeza de primavera. Pelo menos até àquele dia.

No dia anterior, a história tinha sido sobre duas velhas cidades onde as pessoas tinham deixado de nascer e de morrer. Viviam lado a lado ou tinham deixado de viver pois a mim agora parece-me que nelas já não havia resquício de vida. – A cidade em que isso acontecera primeiro – dizia ela – chamava-se Ilha e a segunda Terra. E nenhuma das duas cidades se conhecia, mas eram agora os últimos dois pontos em que a humanidade existia. Todo o resto do mundo humano tinha sido levado pela doença e a malvadez humana. E não haveria malvadez e doença nessas cidades? Já não. Já não havia doenças sem cura em Ilha. Na outra cidade curou-se a maldade. -Dizia maldade da forma mais inacreditavelmente pura, mélica era a sua voz mas com tanta vontade de ser má toda ela, que nós quedávamos-nos aterrados só por uma palavra. Mas penso que todas as crianças ouvem assim as suas mães, continuou – Não sei, como o fizeram precisamente pois não sou entendedora nessas artes e no nosso mundo apenas se aprendeu a curar doenças, e parece aceitável que um dia deixem de existir, não é? Com uma cura atrás de outra… Mas a maldade, ser curada é ciência que o nosso mundo não obteve. Posso apenas dizer que sei que não corre nas veias de ninguém, os bebés nascem sem ela? Mas a cura dessa coisa que se mete dentro do humano e o leva a cometer um ato maldoso não foi lenta como aconteceu com o desaparecimento das doenças, mas sim repentina. Um homem que estudou todos os sentimentos humanos e que os compreendeu curou isso de todos ao mesmo tempo, misteriosamente para mim que apenas vou sonhando e pertenço a este mundo. Primeiramente pensou-se que iam ser felizes os dois últimos povos da terra, mas depressa se caiu no torpor da não vida. E tornaram-se cidades fantasmas, uma sem maldade e outra sem doença. Em Ilha, vivia-se atormentado com o que o outro pudesse fazer, e em Terra a doença atormentava também. O rei de Ilha não perecia e não deixava lugar vago. Em Terra abriram-se as prisões, torres altas rodeadas de céu, que ficaram vazias. Mas um povo deixa de ser humano se apenas a bondade existe, ou melhor a bondade, essa deixa de existir pois deixa de ser resposta a ato maldoso. E a pouco e pouco deixaram de nascer crianças e de morrer os antigos ou os enfermos porque não havia amor. O ultimo que nasceu, veio ao mundo escondido. E mal ele nasceu, os seus pais precipitaram-se com ele nas florestas circundantes à cidade de Ilha pois o sabiam que se ficassem podiam vir a perder o filho. A ultima a nascer em Terra foi levada já em bebé para uma das torres, pois era filha de gente elevada e que queria que a criança não fosse roubada, cárcere que se torna berço. Assim foi.

A minha mãe, pegou meu irmão e deitou-o era mais novo e adormecia mais cedo. Deitou-o na sua cama. Quanto a mim só me contou o resto da historia mais tarde. E adormeci perguntando-me em que mundo se teria passado aquilo. Havia tantos.

Agora descia-mos, depois caminharia-mos em direcção a algo que mudou o nosso mundo: o regresso de minha mãe ao lugar de sua infância e o nosso conhecer dele.

Tédio de viver vertiginoso ou as férias que eu abomino

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É muito fácil entrar de ferias, acaba a faculdade e entramos no calor abrasador do verão. Isto é o paraíso para certos indivíduos (todos os que conheço). O regresso ao Jardim do Éden das séries e da arte de entrar em estado de estivação preguiçosa. Considerando que eu sou um ser humano que geralmente obedece às características típicas dos seres que Deus criou preguiçosos, (e eu sou preguiçosa) eu devia gostar de férias. O certo é que só me sabe bem descansar quando tenho trabalho a fazer. De verdade vos digo, eu adoro procrastinar (qualquer serie de terceira categoria vira Twin Peaks ou Game of Thrones, qualquer comida vira manjar) e não fazer nada, estar só a existir.

Quando estou de férias deprimo, deixo de existir como sou e torno-me literalmente numa massa amorfa que habita o sofá. E eu odeio isso com todas as minhas forças. Por essa razão decidi que este verão vai ser diferente: vou contribuir para a economia e vou trabalhar (mac, continente, cafés aguardem o meu currículo). Isto se alguém aceitar uma estudante de Línguas e Culturas Estrangeiras que só percebe de livros inúteis e filmes inúteis e maravilhosas séries inúteis. Será que o sofá não era assim tão mau?

Fazer uma tatuagem, eis a certeza

“Considero de extremo mau gosto, dá muito mau aspecto” acho por bem colocar entre aspas, uma vez que é, verdadeiramente, uma daquelas frases que pode sair da boca de qualquer Velho do Restelo de serviço,  também nos dirá que não arranjamos emprego assim. Fazer uma tatuagem passa pela cabeça de todo e qualquer adolescente (estou a generalizar, não me matem já por não terem pensado nisso, óbvio que já me estou a dirigir aos meus inexistentes leitores) eu incluída e não percebo porque há este preconceito de entrevista de emprego quanto a algo tão simples. Afinal de contas, é só um desenho. Esqueçam lá o preconceito, acho que já ninguém liga. E por essa razão deixem isso fora dos critérios.

Eu gostava de tatuar algo pela ideia de eternidade da coisa. Podem dizer que a minha cara já é eterna e não muda (pronto envelhece), mas pela cara não se vê quem somos. Eu não mostraria a tatuagem a todos, no entanto mostraria a alguns, explicando o significado (até que dava um bom ponto de partida numa potencial conversa com potencial interesse).

Peculiar cena é a coisa estranha que eu quero tatuar e que origina todo o tipo de reacções: um carvalho. Sim, não é um nome nem uma frase do Pessoa. É uma árvore porque cresci entre elas, a brincar e coisa e tal.  Não nos tornemos já nostálgicos na abordagem ao meu primeiro post. O que eu quero dizer, é que eu sou estranha, gosto de tatuagens, principalmente se forem estranhas. Mais do que estranhas, significativas. Tendo em conta que letras chinesas e rosas é o que mais há nas peles alheias, sejam atrevidos e façam um carvalho (que é o que vou fazer quando tiver dinheiro).

Marquem uma recordação, um sentimento ou alguém na pele, mas para isso não precisam de uma agulha. Fazer uma tatuagem é no sentido literal marcar algo na pele. Por isso o mais importante é marcar alguém, o desenho é secundário.